Os dois posts anteriores (
Feira do Livro e
PISA) abordam assuntos intimamente ligados e sugeriram-me a escrita do presente.
Em primeiro lugar, quero descontar um pouco da euforia da Micas10 - manda o bom senso que não nos deixemos enlevar pela comunhão de qualquer tipo de indicador com
México, Grécia ou Turquia :)
Comecemos pela numeracia. Os resultados são obtidos numa amostra de estudantes, supondo-se que a pontuação média da amostra (p. ex. num teste de leitura) é a melhor estimativa para a pontuação média da população. Não deixa de ser, no entanto, uma estimativa sujeita a erro. Se não houver mais nenhum tipo de erro envolvido (i.e. os instrumentos de medida são perfeitos e a amostra não é enviesada), a variação de resultados dentro da amostra permite-nos calcular intervalos de confiança para a "verdadeira" média na população. Por exemplo, no teste de leitura de 2009, a pontuação média da amostra portuguesa foi 489 e podemos, com 95% de "segurança", afirmar que a média da população fica entre 483 e 495 pontos.
A estimativa do erro de amostragem é fundamental para se comparar resultados entre dois países ou entre dois testes no mesmo país. Por exemplo, no teste de matemática de 2009, tendo em conta o erro de amostragem, Portugal pode estar entre as posições 22 e 29 entre 34 membros da OCDE; Espanha pode estar entre as posições 26 e 29; logo, é um pouco forçado dizer que portugal ultrapassou a Espanha.
Falemos então de literacia. Um resultado inequívoco é que os alunos que lêem nos tempos livres (livros de ficção) têm muito melhores resultados nos testes de leitura. Em Portugal, em 2000, os alunos que declararam ler ficção tiveram uma pontuação de 485; em 2009 os alunos leitores obtiveram 518 pts; já os não leitores tiveram 467 pts em 2000 e 479 em 2009. Diz-nos o erro de amostragem que a evolução não é significativa para os que não lêem, mas é bastante para os que declararam ler por prazer.
Falta a má notícia: o número de estudantes leitores reduziu-se drasticamente entre 2000 e 2009 - de 92% para 79% nas raparigas e de 71% para 50% nos rapazes. Portugal e a Rép. Checa foram os únicos países da OCDE onde o número de leitores diminuiu significativamente. Em geral, as raparigas são melhores na leitura e os rapazes são melhores na matemática. Entre 2000 e 2009, Portugal foi um dos países onde mais aumentou o hiato entre raparigas e rapazes nas pontuações do teste de leitura.