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Quando nós vamos, os outros já vêm

domingo, 25 de julho de 2010
Embora pudesse ter sido mais bem fundamentado, o artigo de Clara Viana no Público (19-07-2010) tem o inegável mérito de colocar num órgão de comunicação de grande audiência a dúvida sobre a fé que o Governo tem no movimento de encerramento e concentração de escolas.
O título é esclarecedor: «Ao contrário de Portugal, lá fora aposta-se no regresso a escolas mais pequenas». Destaca-se ainda a pequena dimensão média das escolas finlandesas que, por outras razões, é certo, chegaram a ser visitadas numa das muitas missões de propraganda do Primeiro Ministro de Portugal. No entanto, é o exemplo americano que é mais desenvolvido pela jornalista. Enquanto em Portugal se fecha uma dezena de escolas para construir um "centro educativo", de seguida "mega-agrupado" com outros, em Nova Iorque cada "mega" escola encerrada dá origem a 10 novas escolas mais pequenas!

Lá como cá, a decisão é política e contestável sob alguns aspectos. Mas há uma diferença importante - os argumentos para o encerramento de grandes escolas e substituição por unidades de menor dimensão, particularmente nas grandes cidades, são lógicos, mesmo que nem todos tenham sido submetidos a avaliação empirica. Há muitas referências sobre a lógica dessa política - escolhi e passo a resumir uma síntese elaborada pela Associação de Administradores Escolares do Estado de Washington:
  • Relação custo-benefício: As escolas pequenas são mais eficientes. As escolas "mega", para além do custo de transporte, implicam maiores custos per capita (i.e. por aluno saído do sistema com sucesso) de operação, de espaço e de salários.
  • Qualidade de ensino: Nas escolas mais pequenas os professores colaboram mais entre si, há mais ensino em equipa e maior controlo das relações com os alunos. Tradicionalmente, as escolas maiores apresentavam vantagens na oferta curricular, i.e. nas possibilidades de escolha de áreas curriculares, mas este efeito tem vindo a atenuar-se.
  • Impactos locais: O encerramento de escolas em pequenas comunidades provocou a perda de empregos, de comércio e de receitas fiscais com assinalável impacto negativo nas economias locais.
    Os comportamentos desviantes - vandalismo, furto, ataques à integridade física e uso de armas - são muito mais frequentes nas escolas maiores.
  • Resultados de aprendizagem: O abandono escolar é superior nas escolas maiores. A motivação para aprender é ligeiramente superior em escolas pequenas. O tamanho da escola não tem efeitos significativos na aprendizagem dos alunos das classes altas e médias, mas os alunos das classes mais desfavorecidas aprendem melhor nas escolas mais pequenas.
Há outra diferença significativa entre o que se faz aqui e o que se faz na América (e na Finlândia, neste particular!) - há uma política diferenciada para as escolas em meio rural. Há o entendimento de que as pessoas têm direito a optar por viver em comunidades pequenas e distantes dos grandes centros e não se admite que sejam obrigadas a mudar de residência para ter acesso à saúde ou ao ensino.

Leituras complementares:
The Rural School and Community Trust (em inglês)
Little House On The Prairie - Country Girls (falado em inglês) V. em alternativa a versão dobrada em espanhol
Fecha escola, abre escola (Beijós XXI, 16-1-2010)

3 Comentários:

Anónimo disse...

Isto quer dizer que os nossos politicos,ou melhor a nossa politica sofre de um atraso de quantos anos?

Anónimo disse...

Os politicos é que exercem a politica. Daí serem os politicos homens / mulheres que sofrem de um atraso não tendo visão da realidade que se vive nos meios pequenos.
Não é nos gabinetes a quilometros de distância que se "mexe" altera o modo de vida de populações que heroicamente resitem ao isolamento.

roger.a disse...

Razões do antes e depois:

Fazer e desmanchar ...tudo é trabalhar;
Fazer e/ou desfazer ...a muitos dá de comer.

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